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19-Abril-2007

Marques Mendes Operado no Hospital de Santa Maria

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Comunicado de Imprensa do Hospital de Santa Maria

Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital de Santa Maria Realiza Intervenção Cirúrgica Única no Mundo

O Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital de Santa Maria realizou, no pretérito dia 21 de Março de 2007, uma intervenção cirúrgica em que foi utilizada uma técnica original e inteiramente desenvolvida em Portugal.
O Prof. Doutor Dinis da Gama, especialista em Cirurgia Geral e Cirurgia Vascular, Director do Serviço, volvidos catorze dias após o complexo e delicadíssimo acto cirúrgico, concedeu-nos esta entrevista onde foram observados todos os aspectos mais expressivos da cirurgia realizada, e que, para além de outros factores, vem mostrar as capacidades e potencialidades existentes no nosso País.
«Este caso envolveu uma doença denominada aneurisma da aorta. A aorta é a principal artéria que irriga todo o organismo, ou seja, é a artéria que leva sangue a todos os segmentos do nosso corpo, e, muito embora raramente, por vezes adoece e começa a dilatar. Regra geral, essa dilatação é progressiva e a dado momento rompe, eventualidade que em segundos provoca a morte do doente. A única forma de prevenir essa evolução catastrófica é sujeitar o doente a uma intervenção cirúrgica, a qual consiste em retirar o aneurisma e substitui-lo por um conduto protésico. Esse conduto, ou se quiser, esse substituto, consta de uma aorta de plástico, actualmente muito sofisticada e sem qualquer risco de rejeição». Para que a informação nos chegasse pormenorizada, o Professor, sempre com uma linguagem acessível continuou: «Em determinadas circunstâncias, o aneurisma é de tal forma grande que envolve não só a aorta do abdómen como também a aorta torácica, o que implica uma intervenção cirúrgica muito complexa. E complexa porque se torna necessário retirar toda a aorta, quer no tórax quer no abdómen, o que significa que estamos perante uma operação que obedece à abertura de toda a cavidade torácica e de toda a cavidade abdominal. Mas para que entenda melhor a delicadeza do processo, posso adiantar-lhe também que para além dessa delicada intervenção, é necessário interromper toda a circulação sanguínea para se proceder à implantação da nova aorta artificial».

Uma técnica americana adaptada à realidade portuguesa

O Professor Dinis da Gama, visivelmente sereno, confiante e determinado, continuou: «Fiz a minha formação nos Estados Unidos da América. Em 1976 estava a trabalhar no maior Centro de Cirurgia Vascular do mundo, onde aprendi com os melhores cirurgiões do século XX. Quando regressei a Portugal, trazia, como é natural, os conceitos e as técnicas americanas, no entanto, lamentavelmente verifiquei que os primeiros doentes que operei não sobreviveram. E não sobreviveram por várias razões: o contexto onde decorre a assistência nos Estados Unidos da América não é o mesmo que decorre em Portugal. Nós, portugueses, somos diferentes e em termos de organização hospitalar tudo é diferente. Somos portugueses, não somos americanos, e as técnicas americanas não têm que ser obrigatoriamente viáveis em Portugal, razão que me levou a adaptar as técnicas americanas às circunstâncias da realidade portuguesa e que fez nascer, em 1984, a publicação desta técnica». E sustentou: «Felizmente que estas situações são muito raras, no entanto, ao longo destes anos temos vindo a aplicar esta técnica que se tem mostrado bem sucedida. Agora tivemos o caso deste doente, um homem de raça caucasiana, com cinquenta e nove anos e que apresentava um aneurisma da aorta com nove centímetros de diâmetro, quando uma aorta normal mede dezoito milímetros. Atente que estamos perante uma situação com uma dimensão cinco vezes superior ao normal, com a agravante de estar na iminência de romper. Ora, a operação que realizámos há precisamente catorze dias e que consistiu na abertura do tórax, do abdómen e a substituição não só de toda a aorta, mas também – e aqui é que está a singularidade – de cada uma das artérias que vai irrigar os rins, vai irrigar o intestino e vai irrigar o fígado, tornou o procedimento muito complexo e extremamente exigente, e mais exigente ainda por estarmos a trabalhar com limites temporais. Tudo tem que ser feito dentro de um período de tempo muito limitado».

O Hospital de Santa Maria, a muita experiência e a elevada qualificação dos profissionais

Instado sobre as condições técnicas e humanas necessárias à realização deste tipo de intervenção, o Prof. Dinis da Gama foi peremptório: «Naturalmente que para se realizar uma operação desta complexidade é necessária muita experiência, mas também é indispensável um conjunto de condições que só se encontram no Hospital de Santa Maria. Por outro lado, também é preciso sublinhar que este tipo de trabalho só se consegue com a participação de bons profissionais, e nós temos excelentes equipas. Dispomos de cirurgiões altamente qualificados, dispomos de anestesistas altamente qualificados e dispomos de enfermeiros altamente qualificados. Para além da cirurgia, temos depois o delicadíssimo período pós-operatório em que é necessário estar, a cada minuto, durante as vinte e quatro horas do dia, junto do doente. E se não veja: este doente perdeu oito litros de sangue, conseguimos recuperar cinco litros e seiscentos mililitros através de um processo de auto-transfusão, mas para todos os efeitos fez uma transfusão maciça, pelo que são perfeitamente normais as desregulações que possam ocorrer, situações que obedecem a um acompanhamento muito cuidadoso e em tempo útil de modo a ser dada resposta pronta a qualquer eventual complicação».

Um orgulhoso olhar de todos e para todos

O Prof. Doutor Dinis da Gama, convidado a um rápido olhar a estes catorze dias, numa só frase fez emergir o seu sentimento de Homem, de Profissional e de Director: «Olhando para estes catorze dias, começo por testemunhar o meu elevado apreço pelo excepcional pessoal que temos, quer a nível de médicos internos quer a nível do corpo de enfermagem. Depois, olhando à singularidade do acto operatório, olhando ao facto de ter sido realizado com uma técnica criada em Portugal e olhando ao facto de nos limites extremos da vida conseguirmos, ao fim de catorze dias nos cuidados intensivos, salvar e recuperar estas pessoas, são factores que constituem um quadro extremamente gratificante. Mais, são factores que merecem ser reconhecidos, por nós em primeiro lugar, depois pelo Conselho de Administração do Hospital e também por todos os portugueses».
E o Professor fechou o seu breve olhar aos catorze dias com estas fortes afirmações: «Temos que ter orgulho no que de bom conseguimos fazer, muito particularmente quando se cria algo de novo e com isso se torne possível salvar vidas. Eu tenho muito orgulho naquilo que fazemos! Tenho muito orgulho no meu pessoal e tenho muito orgulho no Hospital de Santa Maria!».

O staff que interveio na cirurgia

Depois de observados os aspectos mais relevantes e que, de certo, vão marcar a história médico-cirúrgica portuguesa, fica a informação de que esta cirurgia, iniciada às nove horas e concluída às dezoito horas, foi realizada por um staff composto pelos seguintes elementos: Prof. Doutor Dinis da Gama, que chefiou a equipa de Cirurgia, respectivamente: Dr. Diogo Cunha e Sá; Dr. José Maria Rodriguez, e Dra. Madalena Romero. A equipa de Anestesia foi chefiada pela Dra. Ângela Garcia, coadjuvada por mais três médicos anestesistas. A equipa de enfermagem foi integrada por uma enfermeira anestesista, duas enfermeiras instrumentistas e duas enfermeiras circulantes.
Também sobre a prestação de todo o staff directa ou indirectamente envolvido no acto cirúrgico, o Prof. Dinis da Gama fez questão de enaltecer o excepcional trabalho prestado pelo Serviço de Imuno-Hemoterapia, pelo Serviço de Pneumologia e naturalmente pelo pessoal do próprio Serviço de Cirurgia Vascular.

Lágrimas com sabor a Vida

O intervencionado, senhor Francisco Marques Mendes, com a voz embargada pela extrema e compreensível comoção, começou por nos dizer que deve a sua “nova” vida ao Senhor Professor Doutor Dinis da Gama e a toda a sua equipa.
Face pontiaguda, tingida de um castanho dourado emprestado pelos raios solares e severamente mapeada com os traços de quem trabalha a terra, o senhor Francisco deixou-se vencer pela catadupa de lágrimas que ia bebendo.
Eram lágrimas com sabor a vida.
Eram lágrimas de eterno agradecimento a todos quantos lhe ofereceram condições para voltar a chorar.
Eram as lágrimas do senhor Francisco Marques Mendes.
Ao jornalista, atraiçoado pela forte emoção que emoldurou esta visita ao homem de face pontiaguda tingida de castanho dourado, restou expressar um voto do tamanho de todos os mundos de muita saúde ao senhor Francisco.
Da porta da enfermaria ainda acenámos um Adeus.
O senhor Francisco lá ficou, sentadinho, a beber as suas lágrimas com sabor a Vida.

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